Teresina Hardcore

Show

Domingo, 17h, e o Bueiro do Rock surpreende ao receber um público expressivo, feito nada trivial em uma cidade pouco habituada a gigs dominicais, sobretudo nesse horário. Havia, contudo, uma razão especial para a movimentação: tratava-se de uma celebração carregada de memória e significado para o hardcore piauiense.

A banda Azinus, referência incontornável da cena local, comemorava os 30 anos de lançamento de seu único registro até hoje, a demo tape “Saídos do nada a caminho do nada”, composta por quatro faixas que se tornaram peças de identidade para uma geração. Mais do que um show, a ocasião assumia contornos de ritual, reafirmando a permanência de uma obra breve, porém seminal.

Cianeto HC

Abrindo a noite, a A Cianeto HC reafirmou por que figura entre os nomes mais consistentes da nova geração do hardcore local. O repertório concentrou-se majoritariamente em faixas de “Onde os Fracos Não Têm Vez”, disco que serviu de espinha dorsal para o setlist apresentado. A banda soa precisa, intensa, brutal. Fica apenas a expectativa por uma presença mais robusta de músicas do excelente “Sociedade das Marionetes”, cuja ausência foi sentida por parte do público mais atento.

Azinus

A atração central trouxe ao palco do Bueiro do Rock uma combinação rara de nostalgia e dever cumprido. A Azinus conduziu a plateia ao êxtase, com o público entoando em coro cada verso das quatro faixas da demo histórica. Além delas, o set incluiu composições não registradas em estúdio e versões de clássicos do punk/hardcore nacional, ampliando o espectro afetivo da apresentação. A essa altura, já estava evidente que sair de casa naquele fim de tarde de domingo fora uma decisão acertada. Ainda assim, a noite reservava novos picos de intensidade.

Káfila

Na sequência, a veterana Káfila assumiu o palco com segurança e maturidade. O trio percorreu faixas do ColetivoPlaygroundNecrepolítica e alguns singles, evidenciando uma trajetória marcada por coesão e vigor. Há algo de particularmente expressivo na maneira como a banda ocupa o palco, não se trata apenas de executar músicas, mas de reafirmar pertencimento e permanência.

Encerrando o domingo, a Obtus surgiu demolindo qualquer resquício de cansaço. Ver a força do quarteto ao vivo é sempre um privilégio. Chakal, Neto, Assis e Eduardo entregam mais do que um show, oferecem uma experiência quase antropológica, na qual intensidade, técnica e presença se articulam em uma apresentação catártica.

Ao fim, a sensação compartilhada era inequívoca, depois de uma tarde/noite como essa, os domingos jamais serão os mesmos.

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