Ao longo dos últimos anos, dois artistas do extremo sul do mundo e do Brasil — Gustavo Kaly e Wander Wildner — deram início a um projeto sem relógio, sem pressa, sem nenhum desses prazos que tentam domar o mistério da criação. Fizeram como quem ergue as velas e deixa o vento decidir o caminho: devagar, cruzando mares bravios, confiando no tempo.
A ideia era simples e ousada: um disco de dez canções. Temas destilados gota a gota, maturados como uísque antigo, burilados pela sensibilidade de dois cancioneiros que já carregam a própria história na voz. Wander, com sua interpretação inconfundível, dá forma à crueza literária, intensa e luminosa de Gustavo Kaly que, claro, também canta. Esse seria o coração pulsante da empreitada.
Para organizar o caos criativo, chamaram Gabriel Guedes. Músico excepcional e produtor gaúcho de fino faro, ele trouxe consigo a força da banda Pata de Elefante, que entrou na cozinha para condimentar ainda mais esse banquete sonoro, como uma janta subversiva, fumegante, tão cheia de sabor quanto de risco.
Assim nasceu “Emaranhados em gambiarras mal ajustadas”: um conjunto de canções, que sela, enfim, décadas de parceria entre Kaly e Wander. Um corte aberto no final dos anos 90 que agora encontra sua cicatriz transformada em obra. Um disco inteiro, como mandava o ritual de um passado não tão distante, com: capa, letra, espírito, tudo feito com alma.
Produzido por Gabriel Guedes e Gustavo Kaly, o trabalho apresenta 10 canções que abrangem um mundo particular de letras, melodias e interpretações. Dessa dezena de histórias, nove são compostas por Kaly em diferentes momentos e fases. Ao lado delas, ¨Deixa isso pra lá¨, uma releitura da poesia de David Tottersal, do grupo inglês, The Wave Pictures, em uma versão certeira. E como a música pede imagem, a parte gráfica recebe o mesmo cuidado. A missão ficou com Koti — o Chucrobillyman, homem-banda e artista de mira certeira.
O disco abre com a introdução que dá título ao disco, ¨Emaranhados em gambiarras mal ajustadas¨, em uma visão lúdica de um personagem muito aquém de suas possibilidades, mas preso em um entorno hostil e caótico na lente subjetiva de um pardal fictício. Uma auto terapia de solidão coletiva em meio a floresta de cimento. A narração crua na voz gastada de Wander da vida e elegância para introduzir o disco e apresentar o que vem pela frente. A arte da capa, do artista Koti Chucrobillyman, é inspirada nesse texto.
“Olhar Veludo”, faixa que abre a versão vinil do álbum, é uma canção potente e direta, com uma levada folk criada pela Pata de Elefante e uma letra antiga do Kaly. “Antes do café da manhã” também é uma letra e canção antiga, que foi alterada até o resultado final. Uma canção romântica(?), dramática e cheia de literatura, que homenageia Paulo Leminski.
“Depois que a guerra terminou” foi feita em 10 minutos, vem com um relógio marcando o tempo (e dando uma percussão) e fala sobre cachorros que se perdem e não sabem voltar para casa. “Brasas quentes” é uma referência direta ao Brasil, um estresse que acabou em música com pegada western sobre um plano de fuga.
“O segundo lado do disco” é uma leitura sobre a experiência ganhada pela idade e pela vida. Pensamentos sobre finitude. Sobre cancelamentos, profundezas da pós -modernidade classe média. “Sempre que eu posso eu fujo do inverno” é uma frase do Wander em uma dessas conversas filosóficas e saiu originalmente no nono álbum do Wander, mas ganhou uma regravação e nova versão para esse trabalho.
“Tristeza a moda antiga” versa sobre relacionamento de forma direta e foi feita e gravada de forma rápida com uma pegada de samba cru. “Teus pés por aqui” uma história sobre amizade, composta originalmente em espanhol e lançada no álbum pandêmico do Kalil, que ganhou uma versão em português pra este projeto.
Lançado nos streamings no segundo semestre de 2025, “Emaranhados em gambiarras mal ajustadas” está sendo lançado agora em vinil, com direito a uma turnê por parte do Brasil.
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